Romantismo



Romantismo

O romantismo é todo um período cultural, artístico e literário que se inicia no final do século XVIII e vai até o fim do século XIX.Nasce na Alemanha, na Inglaterra e na Itália, mas é na França que ganha força e de lá se espalha pela Europa. O berço do romantismo pode ser considerado três países : Itália,Alemanha e Inglaterra. Porém, na França, o romantismo ganha força como em nenhum outro país e, através dos artistas franceses, os ideais românticos espalham-se pela Europa e pela América. Opõe-se ao racionalismo e ao rigor do neoclassicismo. As características principais deste período são : valorização das emoções, liberdade de criação, amor platônico, temas religiosos, individualismo, nacionalismo e história. Este período foi fortemente influenciado pelos ideais doiluminismo e pela liberdade conquistada naRevolução Francesa.

A iconografia romântica caracterizou-se por sua estreita relação com a literatura e a poesia, especialmente com as lendas heróicas medievais e dramas amorosos, assim como com as histórias recolhidas em países exóticos, metaforizando temas políticos ou filosóficos da época e ressaltando o espírito nacional. Não se pode esquecer que o romantismo revalorizou os conceitos de pátria e república. Papel especial desempenharam a morte heróica na guerra e o suicídio por amor.

O Romantismo no Brasil

O Brasil do início do século XIX foi palco de várias transformações que contribuíram de forma decisiva para a formação de uma verdadeira identidade nacional e, conseqüentemente, uma literatura com características mais brasileiras. A chegada da família real portuguesa em 1808 já era um indício de que aquele seria um século de profundas mudanças na estrutura política, econômica e cultural do país. D. João VI, através de medidas importantes visando o desenvolvimento nacional, abriu os portos para comércio com o mundo, o que significava a fácil entrada de novas tendências culturais, principalmente européias. Além disso, criou novas escolas, bibliotecas e museus, e deu incentivo à tipografia, que implicou a impressão de livros, até então feitos em Portugal, e a edição de jornais. O eixo político-econômico-cultural do Brasil sai então de Minas Gerais para ganhar as portas da realeza no Rio de Janeiro, onde nasce um público consistente de leitores principalmente formado de mulheres e jovens estudantes, provenientes da classe burguesa em ascensão. Enquanto isso, o restante da nação, ainda movido pela estrutura agrária e mão-de-obra escrava, assiste à transição do colonialismo ao império. Era a tão sonhada independência política das correntes de Portugal, numa busca pela liberdade e pelo patriotismo, que iria acolher de braços abertos os ideais românticos.

"O sentimento é tudo!"

Goethe

O Romantismo na Literatura

Em oposição direta ao Arcadismo, o Romantismo, marco de início do Período Nacional da literatura brasileira, que se estende até nossos dias, tem como lema a subjetividade, ou seja, o culto ao EU, ao individualismo e à liberdade de expressão, buscando a criação de uma linguagem nova e compatível com o espírito nacionalista. Impera a emoção, a constante busca pelas forças inconscientes da alma, como a imaginação e os sonhos. É o coração acima da razão humana, que leva ao amor idealizado e puro. A natureza passa a ser a expressão da criação e perfeição de Deus, a única paisagem sem a mão corrupta do homem. É nela que o homem vai refletir todos os seus estados de espírito e desejos de liberdade, de proximidade ao Criador.

Essa busca dos sentimentos e da liberdade entra em choque, porém, com a realidade humana e muitas vezes gera a insatisfação, a depressão e a melancolia em relação ao mundo incompreendido - o "mal-do-século". A conseqüência quase sempre é a fuga, a busca pela morte, pelos ambientes exóticos: o oriente distante ou o passado histórico, que, para os europeus, remonta à época medieval e, para os escritores brasileiros, à vida indígena pré-colonial e colonial. Muitas vezes essa fuga recai sobre a infância, período de pureza, estabilidade e segurança na vida. A criança passa a ser modelo de perfeição, de estado de espírito, de exemplo para a renovação da alma e da sociedade.

No Brasil, o Romantismo desenvolveu-se principalmente nos gêneros romance e poesia. Grande é o número de características que marcaram o movimento romântico, características essas que, centradas sempre na valorização do eu e da liberdade, vão-se entrelaçando, umas atadas às outras, umas desencadeando outras e formando um amplo painel de traços reveladores. Os aspectos considerados os mais significativos são:

1.Contraste entre os ideais divulgados e a limitação imposta pela realidade vivida. O universo conhecido se alarga, o Século das Luzes deixa um rastro de anseios libertários, desloca-se o centro do poder; a dependência social e econômica, a inconsciência, o desconhecimento estabelecem para a imensa maioria, no entanto, uma existência marcada por limitações de toda ordem.

2.Imaginação criadora. Num movimento de escapismo, o artista romântico evade-se para os universos criados em sua imaginação, ambientados no passado ou no futuro idealizados, em terras distantes envoltas na magia e no exotismo, nos ideais libertários alimentados nas figuras dos heróis. A fantasia leva os românticos a criar tanto mundos de beleza que fascinam a sensibilidade, como universos em que a extrema emoção se realiza no belo associado ao terrificante (vejam-se as figuras do Drácula, do Frankstein, do Corcunda de Notre Dame e a ambiência que os rodeia).

3.Subjetivismo. É o mundo pessoal, interior, os sentimentos do autor que se fazem o espaço central da criação. Com plena liberdade de criar, o artista romântico não se acanha em expor suas emoções pessoais, em fazer delas a temática sempre retomada em sua obra.

4.Evasão. O escapismo romântico manifesta-se tanto nos processos de idealização da realidade circundante como na fuga para mundos imaginários. Quando acompanhado de desesperança, sucumbe ao chamado da morte, companheira desejada por muitos e tema recorrente em grande número de poetas.

5.Senso de mistério. A valorização do mistério, do mágico, do maravilhoso acompanha a criação romântica. É também esse senso de mistério que leva grande número de autores românticos a buscar o sobrenatural e o terror.

6.Consciência da solidão. Conseqüência do exacerbado subjetivismo, que dá ao autor romântico um sentimento de inadequação e o leva a sentir-se deslocado no mundo real e, muitas vezes, a buscar refúgio no próprio eu.

7.Reformismo. Esta característica manifesta-se na participação de autores românticos em movimentos contestadores e libertários, com grande influência em sua produção, como foi a campanha abolicionista abraçada por Castro Alves e o movimento republicano assumido por Sílvio Romero.

8.Sonho. Revela-se na idealização do mundo, na busca por verdades diferentes daquelas conhecidas, na revelação de anseios.

9.. É a fé que conduz o movimento: crença na própria verdade, crença na justiça procurada, crença nos sentimentos revelados, crença nos ideais perseguidos, crença que se revela ainda em diferentes manifestações de religiosidade cristã – fé. Não se pode esquecer a profunda influência do medievalismo na construção do mundo romântico, dele fazendo parte a religiosidade cristã.

10.Ilogismo. Manifestações emocionais que se opõem e contradizem.

11.Culto da natureza. A natureza adquire especial significado no mundo romântico. Testemunha e companheira das almas sensíveis, é, também, refúgio, proteção, mãe acolhedora. Costuma-se afirmar que, para os românticos, a natureza foi também personagem, com papel ativo na trama.

12.Retorno ao passado. Tal retorno deu origem a diversas manifestações: saudosismo voltado para a infância, o passado individual; medievalismo e indianismo, na busca pelas raízes históricas, as origens que dignificam a pátria.

13.Gosto do pitoresco, do exótico. Valorização de terras ainda não exploradas, do mundo oriental, de países distantes.

14.Exagero. Exagero nas emoções, nos sentimentos, nas figuras do herói e do vilão, na visão maniqueísta a dividir o bem e o mal, exagero que se manifesta nas características já listadas.

15.Liberdade criadora. Valorização do gênio criador e renovador do artista, colocado acima de qualquer regra.

16.Sentimentalismo. A poesia do eu, do amor, da paixão. O amor, mais que qualquer outro sentimento, é o estado de fruição estética que se manifesta em extremos de exaltação ou de cinismo e libertinagem, mas sempre o amor.

17.Ânsia de glória. O artista quer ver-se reconhecido e admirado.

18.Importância da paisagem. A paisagem é tecida de acordo com as emoções dos personagens e a temática das obras literárias.

19.Gosto pelas ruínas. A natureza sobrepõe-se à obra construída.

20.Gosto pelo noturno. Em harmonia com a atmosfera de mistério, tão próxima do gosto de todos os românticos.

21.Idealização da mulher. Anjo ou prostituta, a figura da mulher é sempre idealizada.

22.Função sacralizadora da arte. O poeta sente-se como guia da humanidade e vê na arte uma função redentora.

Acrescentem-se a essas características os novos elementos estilísticos introduzidos na arte literária: a valorização do romance em suas muitas variantes; a liberdade no uso do ritmo e da métrica; a confusão dos gêneros, dando lugar à criação de novas formas poéticas; a renovação do teatro.

O romance estava em ascensão na Europa e não tardou a fazer sucesso também por aqui. Inúmeros jornais e folhetins traziam em suas páginas as belas traduções de romances europeus de cavalaria ou de amores impossíveis. Logo, toda uma gama de jovens escritores brasileiros interessaram-se pelo gênero e especializaram-se nesse tipo de literatura.

Em termos da temática, o romance brasileiro pode ser dividido em quatro tendências distintas.

  1. O romance urbano, que retrata, muitas vezes de forma crítica, a vida e os costumes da sociedade no Rio de Janeiro. Os enredos, na maioria das vezes, são recheados de amores platônicos e puros, fruto de uma classe social sem problemas financeiros e na maioria dos casos estereotipada. Destacam-se as obras de Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida e principalmente José de Alencar.
  1. O romance indianista, que focaliza a figura do índio. Enquanto o escritor europeu tinha seus cavaleiros medievais, o brasileiro sentiu a necessidade de resgatar em nosso passado um herói que melhor nos retratasse. Mesmo sendo algumas vezes retratado como se fosse um cavaleiro europeu da idade média, a figura do índio surge de forma imponente, com seus costumes e sua vida selvagem, mas cheia de virtudes. Destacam-se aqui as obras de José de Alencar, principalmente os clássicos Iracema e O Guarani.
  1. O romance regionalista, que concentra-se em outra figura brasileira: o sertanejo. Na insistência nacionalista de buscar as raízes de nossa cultura, a figura do sertanejo, com suas crenças e tradições, fez-se tão exótica quanto à do índio. Dentre os regionalistas, destacam-se, além de José de Alencar, Bernardo Guimarães, Visconde de Taunay e Franklin Távora.
  1. O romance histórico, através do qual os romancistas brasileiros buscaram em nossa história temas que alimentassem os anseios românticos, de modo a acentuar ainda mais o nacionalismo exaltado que respirava a pátria desde a independência. Evidenciam-se Bernardo Guimarães e, mais uma vez, José de Alencar.

A poesia brasileira se desenvolveu no Brasil de uma forma muito criativa e rica em temas e imagens, apesar de muitas vezes não passar de mera influência ou cópia de poetas europeus. Podemos dividir toda essa gama de temas em três importantes fases.

  1. Primeira geração romântica: o índio, verdadeiro ícone da cultura tradicional brasileira, concorre nessa primeira geração de igual para igual com os sentimentos e as emoções dos poetas brasileiros. O nacionalismo exaltado vai também apreciar a beleza e a riqueza de nossas matas. Destacam-se os poetas Gonçalves de Magalhães e principalmente Gonçalves Dias, o nosso melhor poeta indianista.
  1. Segunda geração romântica: é a poesia do "mal-do-século". Inspirados pelos poetas europeus, principalmente Lord Byron, nossos poetas vão cantar os amores impossíveis, o desejo pela morte, a indecisão entre uma vida de liberdade ou religiosa, e a incompreensão do mundo, aliada ao desejo de evasão. É o que Fagundes Varela chamou de "a escola de morrer jovem". Destacam-se nessa segunda geração os fervorosos versos do próprio Fagundes Varela, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Junqueira Freire.
  1. Terceira geração romântica: é a geração dos poetas que se cansaram de lamentar as angústias e os amores impossíveis. Era hora de lutar para modificar o mundo que tanto reprimia o ser e o condenava à morte e à constante fuga da realidade. Os poetas dessa terceira geração sentem que é mais do que necessário deixar o choro e a melancolia de lado e se engajar numa luta social, tendo a poesia como espada afiada, que tocava o povo no íntimo. Essa geração acabou por ser denominada como "geração hugoana" (por ter sido diretamente influenciada pelo poeta francês Victor Hugo), e também "geração condoreira", que tendo como símbolo o condor, sugeria que a poesia voasse alto, falasse alto e causasse grande efeito enquanto a voz que toca a massa. Seu maior representante foi Castro Alves.

Essa terceira geração, na verdade, já era o início da transição do Romantismo para o Realismo, em que a crítica social passa a ser uma das características mais marcantes.

Primeira metade do século XIX. Com a ascensão da burguesia após a Revolução Francesa, o teatro adapta-se à mudança de gosto do público. A peça séria romântica evolui não da tragédia, mas da comédia setecentista, que trabalhava com personagens reais e situações mais próximas do dia-a-dia. Os dramas adquirem estrutura muito livre, com uma multiplicidade de episódios entrecruzados que se desenvolvem, através de cenas curtas, em diversos locais. Há uma grande valorização do teatro de Shakespeare.
No ''Prefácio ao Drama'' Cromwell (1827), Victor Hugo enumera novos princípios para o teatro que põe em prática no Hernani e no Rui Blas: abandono das unidades aristotélicas, desprezo pela regra do "bom gosto", que impedia a exibição de cenas chocantes; troca da linguagem nobre e neutra pelo uso de construções coloquiais ou populares; e preferência por temas extraídos da história européia. Autores românticos - Muitas peças são feitas apenas para serem lidas. No ''Lorenzaccio'', de Alfred de Musset, ou no ''Chatterton'', de Alfred de Vigny, há o predomínio da emoção sobre a razão; a atração pelo fantástico, o misterioso e o exótico; e um sentimento nacionalista muito forte. Os franceses influenciam: italianos, como Vittorio Alfieri ''Saul''; ingleses, como lorde George Byron '''Marino Faliero'' ou Percy Shelley ''Os Cenci''; espanhóis, como José Zorilla ''Don Juan Tenório''; e portugueses, como Almeida Garrett ''Frei Luís de Souza''. Espaço cênico romântico - Uma vez mais, a ópera contribui para o enriquecimento das montagens: no Teatro da Ópera de Paris, Pierre-Luc Cicéri e Louis Daguerre, o inventor da fotografia, revolucionam a construção de cenários, a técnica da iluminação à base de gás e os recursos para a produção dos efeitos especiais.

Autores da Literatura Romântica

José de Alencar

José Martiniano de Alencar nasceu em Mecejana - CE, em 1829, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1877, filho de um ilustre senador do império, tão cedo foi morar com a família no Rio de Janeiro. Formado em Direito em São Paulo e Olinda, exerceu muito pouco a profissão, vindo a se dedicar à literatura e ao jornalismo (sendo redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro.)

Sua primeira manifestação literária foi a crítica ao poema "Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães. Logo vieram seus grandes romances como O Guarani e Iracema, o que lhe rendeu as glórias de grande escritor do Romantismo brasileiro. Ingressou na vida política, como o pai, vindo a ser deputado provincial do Ceará e ministro da justiça. Profundamente magoado, deixou a política após ter seu nome vetado pelo imperador para o cargo de senador. Deprimido e muito debilitado pela tuberculose, foi para a Europa para se tratar. Voltou ao Rio já muito doente, morrendo pouco tempo depois.

Características Literárias:

José de Alencar é considerado o maior romancista do Romantismo brasileiro, bem como um dos maiores de nossa literatura. Abrangeu em sua obra todo um perfil da cultura brasileira, na busca de uma identidade nacional que transcorresse o seus aspectos sociais, geográficos e temáticos, numa linguagem mais brasileira, tropical, sem o estilo português, que até então rodeava os livros de outros romancistas. Conseguiu escrever de forma primorosa sobre os mais importantes temas que estavam em voga na literatura da época, descrevendo desde a sociedade burguesa do Rio até o índio ou o sertanejo das regiões mais afastadas. Toda a sua extensa gama de romances pode ser dividida em quatro temas distintos: romance urbano, romance indianista, romance regionalista e romance histórico.

O romance urbano de Alencar segue muitas vezes o padrão do típico romance de folhetim, retratando a alta sociedade carioca com todas as suas belas fantasias de amor. O romancista, no entanto, vai além: por trás de toda a pompa e final feliz onde todos os segredos e suspenses que se desenvolvem nas complicadas tramas são desvendados, está a crítica, a denúncia da hipocrisia, da ambição e desigualdade social. Alencar se especializou também na análise psicológica de suas personagens femininas, revelando seus conflitos interiores. Essa análise de caráter mais psicológico do interior das personagens remete sua obra a características peculiares dos romances realistas, sobretudo de Machado de Assis. Estes são seus romances urbanos: Cinco Minutos, A O romance urbano de Alencar segue muitas vezes o padrão do típico romance de folhetim, retratando a alta sociedade carioca com todas as suas belas fantasias de amor. O romancista, no entanto, vai além: por trás de toda a pompa e final feliz onde todos os segredos e suspenses que se desenvolvem nas complicadas tramas são desvendados, está a crítica, a denúncia da hipocrisia, da ambição e desigualdade social. Alencar se especializou também na análise psicológica de suas personagens femininas, revelando seus conflitos interiores. Essa análise de caráter mais psicológico do interior das personagens remete sua obra a características peculiares dos romances realistas, sobretudo de Machado de Assis. Estes são seus romances urbanos: Cinco Minutos, A Viuvinha, Lucíola, Diva, A Pata da Gazela, Sonhos D'Ouro,Senhora e Encarnação.

As obras indianistas revelam sua paixão romântica pelo exotismo, encarnado na figura do índio, com todos os seus costumes, crenças e relações sociais. Sua descrição sempre se opõe à imagem do homem branco, "estragado" e corrompido pelo mundo civilizado. O índio de José de Alencar ganha tons lendários e míticos, com ares de "bom selvagem". Sua descrição muitas vezes funde seus sentimentos com a beleza e a harmonia exótica da natureza. Caracterizando a bondade, nobreza, valentia e pureza do selvagem, Alencar às vezes o aproxima dos cavaleiros e donzelas medievais, revelando um pouco dos traços românticos europeus que assolavam nossa cultura. Seus romances indianistas são:O Guarani e Ubirajara.

Seus romances regionalistas denotam o interesse e o exotismo pelas regiões mais afastadas do Brasil, aliando os hábitos sociais da vida do homem do campo à beleza natural das terras brasileiras. Se nos romances urbanos as mulheres são sempre enfatizadas, nas obras de cunho regional os homens são figuras de destaque, com toda a sua ignorância e rudeza, enfrentando os desafios da vida, sendo que as mulheres assumem papéis submissos, de segundo plano. Seus romances regionalistas são: O Gaúcho, O tronco do Ipê, Til e o Sertanejo.

Com seus romances históricos – As Minas de Prata e A Guerra dos Mascates – Alencar também buscou na passado histórico brasileiro inspiração para escrever seus romances, criando quase sempre uma nova interpretação literária a fatos marcantes da colonização, como o busca por ouro no interior do Brasil e as lutas pelo aumento das terras nas fronteiras brasileiras. Seus enredos denotam em vários momentos um nacionalismo exaltado e o orgulho pela construção da pátria.

Principais Obras:

Romance: Cinco Minutos (1856); A Viuvinha (1857) O Guarani (1857); Lucíola (1862); Diva (1864) As Minas de Prata (parte inicial: 1862 - obra completa: 1864-65); Iracema (1865); O Gaúcho (1870); A Pata da Gazela (1870); O tronco do Ipê (1871); Sonhos d'Ouro (1872); Til (1872); Alfarrábios ("O Ermitão da Glória" e "O Garatuja") (1873); A Guerra dos Mascates (1873); Ubirajara (1874); Senhora (1875); O Sertanejo (1875); Encarnação (1877).

Teatro: Demônio Familiar (1857); Verso e Reverso (1857); A asas de um anjo (1860); Mãe (1862); O Jesuíta (1875).

Crônicas: Ao correr da pena (1874).

Autobiografia: Como e Porque Sou Romancista (1893).

Cartas: A Confederação dos Tamoios (1856); Ao Imperador: Cartas Políticas de Erasmo (1865); Ao Imperador: novas cartas políticas de Erasmo (1865); Ao povo: cartas políticas de Erasmo (1866); O Juízo de Deus (1867); Visão de Jó (1867); O sistema Representativo (1868).

 

Gonçalves de Magalhães

Domingos José Gonçalves de Magalhães nasceu no Rio de Janeiro, em 1811. Viveu na Europa, onde teve contato com a poesia romântica. A obra Suspiros Poéticos e Saudades foi considerada a obra inaugural do Romantismo no Brasil. O autor procurou criar e consolidar uma literatura nacional para o país. Morreu em Roma, em 1882. Seu poema de destaque foi Noite Tempestuosa do livro Urânias.

Características Literárias:

A Gonçalves de Magalhães atribui-se o mérito de ser o precursor de nosso Romantismo, com a publicação de seu livro Suspiros Poéticos e Saudades (1836). O primeiro livro que o poeta publicou, no entanto, ainda possui uma forte tendência estilística do já decadente Arcadismo. Sua viagem à Europa, onde teve contanto com o romantismo de cunho medieval e patriótico de Chateaubriand, Manzoni e Lamartini, em muito contribuiu para a amadurecimento de sua poesia, marcando a transição para as novas tendências literárias que assimilou. Essa sua fase romântica, mais inovadora, explorou quase todos os temas caros ao Romantismo, como o desgosto da vida, a infância, a saudade, o amor impossível, a melancolia e a tristeza e, de uma forma mais épica, o índio, o que lhe dá os méritos de pertencer à primeira geração romântica ao lado de Gonçalves Dias. Sua obra, porém, carece de uma profundidade, de uma liberdade expressiva e uma estética mais rica e criativa à altura de outros poetas românticos. Seus versos muitas vezes dizem muito pouco, com uma linguagem muito superficial, que não atrai os leitores mais exigentes. Sua grande força literária fica por conta dos ensaios que escreveu, em que soube expressar como poucos os ideais do novo movimento literário vigente.

Principais Obras:

Poesia: Poesias (1832); Suspiros Poéticos e Saudades (1836); A confederação dos Tamoios(1856); Os Mistérios (1858);, Ucrânia (1862); Cânticos Fúnebres (1864).

Teatro:Antônio José (1838); Olgiato (1839).

Ensaios: Opúsculos Históricos e Literários (1865).

Filosofia: Fatos do Espírito Humano (1858); A Alma e o Cérebro (1876); Comentários e Pensamentos (1880).

Prefácio de Suspiros Poéticos e Saudades

"E um livro de poesias escritas segundo as impressões dos lugares; ora assentando entre ruínas da antiga Roma, meditando sobre a sorte dos impérios, ora no cimo dos Alpes, a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço; ora na gótica catedral, admirando a grandeza de Deus e os prodígios do Cristianismo; ora entre ciprestes que espalham sua sombra sobre os túmulos; ora refletindo sobre a sorte da Pátria, sobre as paixões dos homens, sobre o nada da vida. São poesias de um peregrino, variadas como cenas da Natureza, diversas como as fases da vida, mas que se harmonizam pela unidade do pensamento, e se ligam como os anéis de uma cadeia; poesias d'alma e do coração, e que só pela alma e o coração devem ser julgadas."

--Gonçalves de Magalhães

 

Gonçalves Dias

Antônio Gonçalves Dias, filho de um comerciante português e de uma mãe mestiça de índio e negro nasceu em Caxias, 1823, e faleceu na Costas do Maranhão, 1864. Primeiro grande poeta do Romantismo brasileiro. A temática indianista que caracteriza sua obra apresenta forte colorido e ritmo. Seu grande poema indianista Os Timbiras ficou incompleto, pois durante o naufrágio em que o poeta morreu perderam-se também os textos. Além da vertente indianista, também se destaca a lírica amorosa, mas não apresenta passionalidade. Aqui a mulher é sempre um anjo, idealizada, numa ótica platônica.

Características Literárias:

Gonçalves Dias foi um dos poucos poetas que soube dar um toque realmente brasileiro na sua poesia romântica, mesmo escrevendo sobre todos os temas mais caros ao Romantismo europeu, como o amor impossível, a religião, a tristeza e a melancolia. Suas paixões são reveladas muitas vezes num tom ingênuo e melancólico, mas muito menos tempestuosas e depressivas que as dos poetas da segunda geração romântica. A morte e a fuga do real não lhe são tão atraentes, principalmente quando esse real inclui as belezas naturais de sua terra tão amada. Suas musas parecem se fundir às belas imagens e fragrâncias da natureza, lembrando várias vezes a própria pátria, que é cantada com toda a sua exuberância e saudade, revigorada pelo seu sentimento nacionalista. A saudade, aliás, é a grande mola propulsora que leva o poeta a escrever em Coimbra o poema que é considerado por muitos a mais bela obra-prima de nossa literatura: A Canção do Exílio.

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá."

--Canção do Exílio

O nome de Gonçalves Dias está mais ligado, porém, com a poesia indianista. Isso se deve ao fato de ninguém ter conseguido criar versos tão líricos, belos e magníficos quantos os que o poeta maranhense dedicou aos costumes, crenças, tradições dos índios brasileiros, por ele considerados como verdadeiros representantes de nossa cultura nacional. A figura do indígena ganha tons míticos e épicos dentro da poesia, capazes de colocar à tona toda a sua harmonia com a natureza, sua honra, virtude, coragem e sentimentos amorosos, mesmo que isso muitas vezes signifique uma imagem idealizada e exacerbada de sua vida quotidiana. É, apesar de todo esforço nacionalista, o resquício da visão que os povos da Europa tinham do selvagem da América, aliada a uma tentativa de conciliação entre a sua imagem e os ideais e honras do cavaleiro medieval europeu, fartamente cantado no Romantismo.

Mais do que uma vigorosa exaltação nacionalista, alguns dos versos que Gonçalves Dias dedicou aos índios servem e muito para denunciar os três séculos de destruição que os colonizadores impuseram às suas culturas.

Principais Obras:

Poesia: Primeiros Cantos (1846); Segundos Cantos (1848); Sextilhas de Frei Antão (1848); Últimos Cânticos (1851); Os Timbiras - obra inacabada (1857; Cantos (1857).

Teatro: Beatriz de Mendonça (1843); Leonor de Mendonça (1847); Patkull (1943).

Outros Gêneros: Meditações (1845/46); Brasil e Oceânia (1852).

Tradução: A Noiva de Messena, de Schiller (1863).

Álvares de Azevedo

Poeta que melhor representou a estética ultra-romântica. Tendência aos aspectos mórbidos e depressivos da existência, degeneração dos sentimentos, decadentismo e até satanismo. A escolha vocabular reflete essa tendência: "pálpebra demente", "matéria impura", "fúnebre clarão", "boca maldita", entre outros. Esta linguagem, acrescida de termos científicos, voltará no Simbolismo com Augusto dos Anjos. Morreu tuberculoso aos 20 anos de idade, não sendo reunida em livro sua obra.

Principais Obras:

"Liras dos vinte anos" - livro-síntese dessa geração pois revela a força lírica e a v ironia romântico-macabra; "Macário" - composição livre, meio diálogo, meio narração; "O Conde Lopo"; "Poema do Frade"; "Pedro Ivo" (poemetos); "Noite na Taverna" - prosa narrativa fala da boemia estudantil da época, que era uma forma de protesto e fuga.

"Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!"
" Quando falo contigo, no meu peito
esquece-me esta dor que me consome:
Talvez corre o prazer nas fibras d'alma:
E eu ouso ainda murmurar teu nome!"

  --Lira dos Vinte Anos  

"Pois bem, dir-vos-ei uma história. Mas quanto a essa, podeis tremer a gosto, podeis suar a frio da fronte grossas bagas de terror. Não é um conto, é uma lembrança do passado."

--Noite na Taverna

"Mais claro que o dia. Se chamas o amor a troca de duas temperaturas, o aperto de dois sexos, a convulsão de dois peitos que arquejam, o beijo de duas bocas que tremem, de duas vidas que se fundem tenho amado muito e sempre! Se chamas o amor o sentimento casto e poro que faz cismar o pensativo, que faz chorar o amante na relva onde passou a beleza, que adivinha o perfume dela na brisa, que pergunta às aves, à manhã, à noite, às harmonias da música, que melodia é mais doce que sua voz, e ao seu coração, que formosura há mais divina que a dela—eu nunca amei. Ainda não achei uma mulher assim. Entre um charuto e uma chávena de café lembro-me às vezes de alguma forma divina, morena, branca, loira, de cabelos castanhos ou negros.

Tenho-as visto que fazem empalidecer—e meu peito parece sufocar meus lábios se gelam, minha mão se esfria…"

--Macário

"Esse amor foi uma desgraça. Foi uma sina terrível. Ó meu pai! ó minha segunda mãe! ó meus anjos! meu céu! minhas campinas! É tão triste morrer!"

--Macário

Junqueira Freire

Luís José Junqueira Freire nasceu em Salvador em 1832 e faleceu no mesmo local em 1855. Tendo estudado Humanidades no Liceu Provincial de Salvador, ingressou na ordem beneditina, mais para fugir dos conflitos familiares do que por vocação. Lá permaneceu por pouco tempo, abandonando a vida sacerdotal em 1854 por necessidade de fuga dos constantes momentos de desespero por que passou dentro de sua vida sacerdotal, causados por sua falta de fé e vocação e sua desilusão em relação à vida monástica, o que foi presenciado no seu livro "Inspirações do Claustro", publicado na Bahia em 1865. De volta a casa da mãe, vem a morrer um ano depois, vítima de problemas cardíacos que o molestavam desde a infância. . Seu poema em destaque foi Meu filho no claustro.

Características Literárias:

As dramáticas e desesperadas experiências que Junqueira Freire passou dentro do sacerdócio, e dentro do convívio familiar, irão refletir-se em toda a sua obra poética, fortemente autobiográfica. Nela se pode constatar a notória crise de morais e conceitos com que a igreja convivia no século XIX, refletida nos seus versos, onde é marcante todo o seu conflito entre a vida religiosa e a revolta com os fatos que presenciou dentro dela. Sua falta de vocação e seu desejo ardente pelos prazeres do mundo também são expressos com um forte lirismo e ao mesmo tempo com um constante pessimismo e tristeza. O amor, contrastando com a sexualidade reprimida, a consciência do pecado e o sentimento de culpa, levam-no várias vezes a desejar ardorosamente a cura e o alívio da morte, dando-lhe a afinidade de uma amiga portadora da paz eterna – como se vê em um dos seus poemas mais conhecidos: Morte.

Embora pertencente ao Romantismo, Junqueira Freire teve, no entanto, uma ligação ainda muito forte com o estilo neoclássico, o que tornou suas poesias carentes de uma fluência mais romântica, ou seja, mais melodiosa, com versos mais livres. Seu estilo mais preso, de caráter mais rígido, não lhe permite expressar todos os seu sentimentos de forma mais solta e intensa.

Principais Obras:

Poesia: Inspirações de claustro (1855).

Casimiro de Abreu

Casimiro José Marques de Abreu, filho de um português comerciante e dono de terras no Rio de Janeiro, nasceu em 1839 na Barra de São João, R.J. e faleceu no mesmo local em 1860. Estudou Humanidades em Nova Friburgo, curso que não completou, abandonando para se dedicar ao comércio junto com o pai. Fato esse que o deixou bastante deprimido. Viajou para Lisboa, lugar onde viveu entre os anos de 1853 e 1857 e viu sua peça "Camões e o Jau" obter um certo êxito. De volta para o Brasil, no ano de 1859, assistiu seu único livro de poesias, "Primaveras", ser publicado às custas do apoio financeiro paterno. Morre um ano depois, vítima de tuberculose, na fazenda de sua família. Casimiro José Marques de Abreu, filho de um português comerciante e dono de terras no Rio de Janeiro, nasceu em 1839 na Barra de São João, R.J. e faleceu no mesmo local em 1860. Estudou Humanidades em Nova Friburgo, curso que não completou, abandonando para se dedicar ao comércio junto com o pai. Fato esse que o deixou bastante deprimido. Viajou para Lisboa, lugar onde viveu entre os anos de 1853 e 1857 e viu sua peça "Camões e o Jau" obter um certo êxito. De volta para o Brasil, no ano de 1859, assistiu seu único livro de poesias, "Primaveras", ser publicado às custas do apoio financeiro paterno. Morre um ano depois, vítima de tuberculose, na fazenda de sua família.Poeta que representa a sensibilidade brasileira espontânea. Conhecido como "poeta da infância", fala muito da inocência perdida Trabalha também temas do chamado "romantismo descabelado": exílio e lirismo amoroso.

Características Literárias:

Sua poesia é das mais populares e mais lidas pelo povo brasileiro, Meus Oito Anos, por exemplo, mesmo não sendo das melhores dentre seus contemporâneos. Sua popularidade se deve à linguagem simples, terna, cativante e de leitura fácil que o poeta empregou para cantar os temas mais comuns do Romantismo. O amor expresso em seus poemas é sempre impossível, delicado, platônico e idealizado, entrando em atrito com a pureza, a paixão contida e o receio de corresponder e se entregar à mulher amada.

Sua obra, aliás, é quase toda tomada pelo tormentoso conflito entre o desejo e o medo, a realidade perturbadora e a pureza da infância, da natureza e dos sonhos, gerando a tristeza, a melancolia e o depressivo desejo de morte. A saudade também é largamente cantada em seus versos, acentuando desde as dores da distância da pátria e da família, até a distância da infância, onde o poeta lamenta a pureza e os sonhos perdidos. A obra de Casimiro de Abreu, no entanto, carece de uma linguagem mais rica e um estilo mais criativo, aprofundado.

Sua poesia, entretanto, agradou muito a leitores menos exigentes e donzelas ávidas por palavras e versos de amor, mas nunca chegou a ter a riqueza de imagens que encontramos nos poemas mais fecundos de Gonçalves Dias e Castro Alves. Tão pouco se aproxima dos versos mais irônicos e satânicos, mas não menos ingênuos, de Álvares de Azevedo. Sua virtude está em exprimir e traduzir de uma forma pura e delicada todos os sentimentos e emoções mais latentes de um povo que ainda cantava as glórias da independência e a grandeza da pátria, o que lhe atribuiu fama e popularidade fácil.

Principais Obras:

Poesias: Primaveras (1859)

Teatro: Camões e o Jau" (1856)

"Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"

--Meus oito anos

Todos cantam sua terra,
Também vou cantar a minha,
Nas débeis cordas da lira
Hei de fazê-la minha rainha;
— Hei de dar-lhe a realeza
Nesse trono de beleza
Em que a mão da natureza
Esmerou-se em quanto tinha.
Correi pras bandas do sul:
Debaixo dum céu de anil
Encontrareis o gigante
Santa Cruz, hoje Brasil;
— É uma terra de amores
Alcatifada de flores
Onde a brisa fala amores
Nas belas tardes de Abril.
Tem tantas belezas, tantas,
A minha terra natal.
Que nem as sonha um poeta
E nem as canta um mortal!
— É uma terra encantada
— Mimoso jardim de fada —
Do mundo todo invejada,
Que o mundo não tem igual.
Não, não tem, que Deus fadou-a
Dentre todas — a primeira:
Deu-lhe esses campos bordados,
Deu-lhe os leques das palmeiras.
E a borboleta que adeja.
Sobre as flores que ela beija.
Quando o vento rumoreja
Nas folhagens da mangueira.
É um país majestoso
Essa terra de Tupã,
Desd'o Amazonas ao Prata,
Do Rio Grande ao Pará!
— Tem serranias gigantes
E tem bosques verdejantes
Que repetem incessantes
Os cantos do sabiá.

--Casimiro de Abreu

Fagundes Varela

Poeta romântico boêmio inspirado pelo byronismo. A morte marca sua vida pessoal com a perda do filho de três meses e da ex-esposa. Por sua amizade com Castro Alves, fez a ponte da poesia pessimista à poesia social. Falece, alcoólatra e mentalmente desequilibrado tornando-se o protótipo do poeta maldito brasileiro.

Características Literátiras

Sua poesia marca a transição entre a geração ultra-romântica de Álvares de Azevedo e a geração condoreira de Castro Alves, passando por vários temas comuns do Romantismo vigente. Chegou a situar sua própria poesia "entre a descrença de Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu e a escola de 'morrer moço' e 'os tacapes e borés' do Sr. Gonçalves Dias." Em certos momentos, seus versos ganham a depressão, o pessimismo, o culto à morte e a melancolia byroniana típicos da segunda geração romântica. A ingenuidade, e a paixão incontida, que o aproxima da poesia de Casimiro de Abreu, está sempre presente nos seus versos dedicados ao amor, à musa idealizada e perfeita. A sua religiosidade também é sempre forte e visível. Seus versos melosos, muitas vezes superficiais e de linguagem simples, convivem com obras-primas do mais puro e sincero sentimento humano, como é o caso de "O Cântico do Calvário", dedicado ao filho que perdeu.

Fagundes Varela foi um dos mais fervorosos poetas a cantar a natureza e suas belezas, que servem de alívio à sua debilitada vida errante. A exaltação à pátria também é marcante, onde o poeta canta as grandezas da nação e seu povo, bem como a figura ilustre de D. Pedro II. Essa exaltação muitas vezes entra em conflito com o inconformismo e a inadequação à sociedade, o que o leva a escrever sobre os problemas sociais, aproximando-o da poesia condoreira da terceira e última geração romântica.

Principais Obras:

Poesia: Noturnos (1863); O estandarte auriverde (1863); Vozes da América (1864); Cantos e Fantasias (1865); Cantos do Ermo e da Cidade (1869); Cantos meridionais (1869); Anchieta, ou Evangelho na Selva (1875); Cantos religiosos (1878); Diário de Lázaro (1880).

"Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústia conduzia
O ramo da esperança. - Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pergueiro."

--Cântico do Calvário

Castro Alves

Antônio Frederico Castro Alves nasceu numa fazenda em Curralinhos, no estado da Bahia, em 1847 e morreu em Salvador em 1871. Bastante cedo foi para o Recife cursar Direto onde, aliado a outros jovens escritores como Rui Barbosa e Tobias Barreto, participou de movimentos abolicionistas e liberais. Enamorado da atriz portuguesa Eugênia Câmara, foi para São Paulo com a intenção de terminar o curso. Abandonado pela amante, viveu uma vida boêmia e intensa na capital. Numa viagem ao Rio de Janeiro, conheceu José de Alencar e Machado de Assis, que muito lhe elogiaram. Numa caçada no final do ano de 1868, feriu o pé com um tiro e foi obrigado a amputá-lo, o que serviu para agravar seus problemas com a tuberculose, que já o molestava há um certo tempo. De volta a Salvador, morreu aos vinte e quatro anos, totalmente tomado pela doença.

Características Literárias:

A obra de Castro Alves, tendo como relevância a sua poesia, difere muito da obra indianista de Gonçalves Dias ou do ultra-romantismo de Álvares de Azevedo. A temática do amor, por exemplo, deixa de ser idealizada para se tornar mais real, carnal e concreta. A mulher perde a já tão gasta imagem de musa desejada, impossível e distante para se tornar mais acessível, fruto de lembranças amorosas, ou mais acessível às paixões e desejos do poeta. A morte não é mais uma fuga e sim um temível e amargo obstáculo às realizações e sonhos. A depressão e melancolia estão presentes, mas perdem espaço para a exaltação da natureza, sempre grandiosa e em harmonia com os estados de espírito do poeta. A referência às grandes aves, principalmente à águia e ao condor (símbolo da terceira geração romântica: a condoreira), é constante, expressando a liberdade, as alturas que sua poesia pode atingir.

Mas o forte da poesia de Castro Alves está na crítica social, inspirada principalmente pelo poeta francês Victor Hugo. Sua poesia perde a maior parte do caráter evasivo e distante da realidade tipicamente românticos para ganhar uma voz mais participante dentro da sociedade. O caráter crítico de sua obra, principalmente ligado às causas da abolição, rendeu-lhe o título de "Poeta dos escravos." Isso é notório no longo poema "O navio negreiro" onde há a denúncia das péssimas condições com que os negros escravos eram transportados. Embora tenha sido um escritor do Romantismo, suas poesias, na verdade, já continham os primeiros indícios da transição do Romantismo exacerbado e depressivo para o Realismo crítico, que já contava com sua força máxima na Europa.

Principais Obras:

Poesia: Espumas Flutuantes (1870); A cachoeira de Paulo Afonso (1876); Os escravos (1883)

Teatro: Gonzaga ou a Revolução de Minas (1875).

Eras um sono dantesco... O tombadilho,
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar,
Tinir de ferros... Estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite
Horrendos a dançar"

--Os Escravos

Bernardo Guimarães

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães nasceu e faleceu em Ouro Preto, respectivamente, em 1825 e 1884. Conviveu desde pequeno com as paisagens rudes porém magníficas de Minas Gerais, que lhe serviriam de inspiração por toda a sua obra de cunho regionalista. Cursou Humanidades em Ouro Preto e logo foi para São Paulo cursar Direito, onde conheceu outros poetas boêmios como Álvares de Azevedo, levando como estes uma vida agitada pelas noites paulistas, retratadas principalmente em suas poesias. Exerceu a profissão de advogado, jornalista, crítico literário, juiz municipal em Catalão (Goiás) e professor secundário em Ouro Preto e em Queluz, profissão que parece não ter exercido de uma maneira regular.

Características Literárias:

Autor do primeiro romance regionalista brasileiro (O Ermitão de Muquém, escrito em 1858 e publicado em 1864)), Bernardo Guimarães tem sempre a preocupação de retratar as paisagens e ambientes de Minas Gerais e Goiás. Seu pecado está muitas vezes em retratá-las de forma muito adjetivada e estereotipada, mostrando que suas lembranças de criança perderam espaço para a sua cultura e sua vida mais urbana. Foi inclusive taxado por Monteiro Lobato de convencional e falsificador de nossas matas. Seus romances giram em torno, na maioria das vezes, das fórmulas mais simples do romance tipicamente de folhetim: o herói nobre, o patife e a heroína apaixonada, com todos os familiares que vão servir de obstáculo ou ajuda para o desenvolvimento do enredo. Foi um dos poucos escritores do nosso Romantismo a fundir no romance idealizado os elementos da narrativa oral, mostrando muitas vezes, sob a forma de "causos e estórias", os costumes e os cenários goianos e mineiros. Seu romance mais conhecido é A Escrava Isaura(1875), que relata sobre as características mais árduas e trágicas da escravidão, porém de um forma idealizada e distorcida. A heroína escrava, Isaura, é descrita com traços de donzela que lembram as sinhás-moças de peles róseas. Isso se deve muitas vezes às características ainda européias de idealizar e retratar as moças que todo bom romancista ou poeta brasileiro herdaria. Já O Seminarista (1872) retrata e critica, sob a influência do escritor português Alexandre Herculano, a vida no clero e a falta de vocação de sacerdotes.

Principais Obras:

Romance: O Ermitão de Muquém (1864); Lendas e Romances (1871); O Garimpeiro (1872); O Seminarista (1872); O Índio Afonso (1873); A Escrava Isaura (1975); Maurício ou Os Paulistas em São João d'El Rei (1877); A Ilha Maldita (1879); O Pão de Ouro (1879, Rosaura, a Enjeitada (1883); O Bandido do Rio das Mortes (1905).

Poesia: Contos da Solidão (1852); Poesias (1865); Novas Poesias (1876); Folhas de Outono (1883).

Álvares de Azevedo

Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo em 1831 e faleceu no mesmo local em 1852. Mudou-se muito jovem para a cidade do Rio de Janeiro, vindo a estudar no colégio D. Pedro II, onde foi aluno de Gonçalves de Magalhães. Bem cedo começou a despertar interesse pelos poetas românticos europeus, principalmente Byron e Musset, que lhe inspiraram profundamente. Cursou faculdade de Direito em São Paulo, a qual não chegou a concluir. Nesse período de estudo, o poeta levou uma vida boêmia, ligada à sociedade "Epicuréia", grupo secreto muito conhecido pelos seus rituais satânicos, e acabou escrevendo toda a sua obra. Vítima da tuberculose, termina o quarto ano da faculdade e vai passar férias no Rio de Janeiro, onde sofre uma queda de cavalo que lhe serviu para aumentar a agravar os problemas de saúde. Morreu pouco tempo depois, sem ver seus poemas publicados.

Características Literárias:

Sua obra, embora irregular, é o que de mais rico existe dentro da geração ultra-romântica do Romantismo brasileiro, com magníficos versos que revelam todos os seus ardorosos desejos juvenis aliados a uma forte tendência à depressão, à melancolia e à morte. Sua poesia muitas vezes se mostra macabra e satânica, ou com fortes toques de ironia e irreverência, que lembram as melhores obras de Lord Byron. Álvares de Azevedo, no entanto, soube também expressar seus sentimentos mais puros e ingênuos, onde o amor é sempre representado pela mulher idealizada, adormecida e distante, mas com fortes lampejos de sensualidade. Seus sentimentos de paixão e desejo convivem de forma tormentosa com o medo, o delírio, a tristeza e a busca constante pela morte.Leitor fervoroso da vida e da obra de Byron, Musset, Shelley, Goethe e outros.

Álvares de Azevedo vai, na maioria das vezes, se inspirar nesses poetas para construir seus versos. Por isso, suas experiências relatadas são quase sempre fruto de uma rica e fértil imaginação, sempre pendendo para o campo das imagens obscuras e do sonho, tornando-o o mais criativo poeta de sua geração.

Em prosa, seus contos fantásticos, reunidos em "Noite na Taverna, caracterizam o que há de mais gótico, satânico e byrônico em nossa literatura, se aproximando muito dos contos do escritor inglês Edgar Allan Poe.

Principais Obras:

Poesia: Lira dos Vinte Anos(1853); Conde Lopo (1866); Poema Frade; Ivo

Conto: A noite na Taverna (1855)

Teatro: Macário (1855)

O Romantismo nas Artes Plásticas

O romantismo, nas artes plásticas, talvez esteja mais ligado a um estado de espírito e crenças filosóficas do que a um estilo ou imagem visual específica. Além disso, os próprios líderes do movimento romântico, nas artes plásticas, apresentam grande diferenciação entre si. De uma forma geral, o romantismo caracteriza-se pela valoração da experiência individual e da imaginação como principal fonte de recursos para a expressão artística. Além disso, esse movimento marcou uma revolta contra o conservadorismo nas artes, pautando-se, todavia, pela moderação. Tanto como o Classicismo, aspectos como a virtude ou a grandeza são valorizados, bem como um modo de vida pertencente ao passado. O Romantismo se manifesta cla­ramente com suas tendências melancólicas, alusões à dúvida e ao te­mor, à ânsia e à tormenta, à morte e à noite. . O estilo romântico apregoa primazia do sentimento que dita normas e formas, com maior liberdade, exaltando como conteúdo temas históricos atuais, com preocupação nacionalista, de modo dra­mático, exótico e chocante. Exuberância, movimento, contrastes ar­dentes, pinceladas livres, irregulares e pastosas, domínio de massa substituem a convencional apuração técnica e exatidão dos contornos, presentes nas obras neo-clássicas.

Liberdade de expressão

Um dos maiores méritos creditados aos artistas desse período foi terem conseguido imprimir mais liberdade à arte, dando espaço para suas próprias expressões pessoais, o que talvez, até então, somente um poeta poderia fazer. O Gótico Revival, que foi a revalorização estética dos construções da Idade Média, em especial o estilo gótico, pelo menos em suas primeiras manifestações, pode ser considerado um aspecto do romantismo. A partir do momento em que se desenvolve, entretanto, chega a ser considerado por alguns historiadores como uma escola própria, separada já do romantismo.


Autor: Camila Smith